Da periferia para o mundo
- Afro Connect
- 18 de jul.
- 3 min de leitura
por Victor Esculapio, Criador de Conteúdo, Coordenador de Eventos e Produtor Cultural.

Eu cresci entre a música, o samba e o calor da família, na comunidade Calux, em São Bernardo do Campo. Filho de metalúrgico e de manicure, aprendi cedo que dedicação é herança. Os discos que tocavam na vitrola da minha avó me formaram tanto quanto os livros da escola. Hoje eu entendo: ali começou minha relação com narrativa, com ritmo, com o poder de uma boa história bem contada.
Comecei a trabalhar aos 15 anos como gandula de tênis. Depois vieram o programa de jovem aprendiz, o fast food, a logística, o varejo. Cada um desses lugares me ensinou o que nenhuma faculdade ensina: ler pessoas, escutar de verdade, me comunicar com qualquer público. Quando entrei em Relações Públicas, eu não buscava só um diploma. Eu buscava nome pra algo que eu já fazia a vida inteira.
Foram mais de 10 anos de carreira em eventos e marketing. Passei por agência, por operadora de turismo, por plataforma de inovação, coordenei eventos em uma multinacional de publicidade e liderei um comitê de diversidade. Produzi mais de 50 eventos para marcas como Localiza, Rexona e Lacta.
E teve o dia em que a comunicação me levou literalmente pro outro lado do mundo. Recebi uma mensagem inesperada no LinkedIn de um diretor de marketing e eventos da Índia. Podia ser só mais uma notificação. Virou convite, virou passagem, virou trabalho. Fui parar na Índia, em um evento internacional de turismo ligado ao governo indiano. Um menino do Calux, do outro lado do planeta, por causa de um perfil bem construído e de uma trajetória contada com verdade. Naquele momento eu entendi de vez: engajamento não é vaidade, é ponte.
Foi essa consciência que me levou de vez pra criação de conteúdo. A câmera do celular é a ferramenta mais democrática que a nossa geração recebeu. Criei o formato "Colei no...", em que ocupo espaços de cultura, memória e cidade e conto essas histórias pro meu público. Um desses vídeos, sobre o Saudosa Maloca, passou de 300 mil visualizações somadas entre TikTok e Instagram. Não foi sorte. Foi escuta, roteiro e verdade.
E nada disso caminha sozinho. A troca com os coletivos negros é parte fundamental de quem eu sou e do que eu produzo. Do Encontro dos Homens Pretos, onde a gente fala de afeto, saúde e presença, às parcerias com espaços de cultura preta e periférica, é nesses encontros que minha comunicação ganha corpo e propósito. É comunidade que forma repertório. É coletivo que sustenta caminhada.
Hoje eu vivo da comunicação por inteiro: crio conteúdo para marcas, produzo projetos culturais e ensino. Ministrei cursos pelo SENAC SP de fotografia com smartphone para mulheres em situação de vulnerabilidade e de storytelling para jovens de Paraisópolis. Ver uma aluna fazer a primeira venda com uma foto que ela mesma produziu, ainda durante o curso, é o tipo de resultado que não cabe em relatório, mas que define por que eu faço o que faço.
Se tem algo que a minha trajetória prova é que comunicação não é dom, é construção. Do gandula ao coordenador, do Calux à Índia, o que me trouxe até aqui foi a capacidade de transformar vivência em narrativa, narrativa em conexão e conexão em oportunidade. É isso que eu entrego em cada conteúdo, em cada projeto, em cada sala que eu ocupo.
E é só o começo.



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