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Desafios da carreira e do profissional preto no mercado de trabalho

  • Afro Connect
  • há 4 dias
  • 5 min de leitura

por Ronaldo Martins, sócio e diretor do PEM e profissional da área de tecnologia e produtos digitais.


Há 27 anos eu escrevo a minha história na área de tecnologia.

Quando comecei, em 1998, eu tinha apenas 15 anos. Não existia LinkedIn, bootcamp ou comunidades de tecnologia. Existia apenas um garoto apaixonado por computadores que gostava de ajudar os colegas da escola.

Foi justamente uma colega que enxergou algo em mim antes mesmo de eu acreditar totalmente no meu potencial. Ela trabalhava em uma pequena escola de informática do bairro e me convidou para substituir um professor que estava saindo.

Fiz um teste rápido. Passei.

Naquele dia, sem saber, eu começava uma carreira que atravessaria quase três décadas.

Desde então, passei por praticamente todas as fases que um profissional de tecnologia pode imaginar: fui professor de informática, coordenador de ensino antes mesmo dos 20 anos, desenvolvedor, consultor, gerente de projetos, Agile Coach, Product Manager e, posteriormente, Group Product Manager, liderando equipes multidisciplinares e produtos utilizados por milhares de pessoas.

Hoje são mais de duas décadas de experiência profissional, mais de 30 grandes empresas atendidas ao longo da carreira e projetos realizados em organizações como Unilever, Citibank, Mercedes-Benz, Santander, Banco PAN, Itaú, Riachuelo e Clinicorp.

Mas essa não é apenas uma história sobre tecnologia.

É uma história sobre aprender a sobreviver — e depois aprender a liderar.


Os códigos que ninguém ensina

Ao longo da minha carreira descobri uma verdade que, infelizmente, poucos dizem em voz alta.

Para um profissional negro, dominar apenas a parte técnica nunca foi suficiente.

Foi preciso aprender aquilo que eu costumo chamar de os códigos invisíveis do mercado corporativo:

Como determinadas decisões realmente acontecem.

Como reuniões mudam o rumo de uma carreira.

Como conversas de corredor podem valer mais do que apresentações impecáveis.

Como registrar alinhamentos.

Como construir influência.

Como se antecipar aos problemas.

Como entender a política organizacional sem deixar de ser íntegro.

Demorei anos para compreender esses códigos.

Enquanto eu acreditava que bastava trabalhar mais, entregar mais e estudar mais, percebia que algumas oportunidades simplesmente não chegavam.

Na época eu não entendia o racismo estrutural como entendo hoje.

Em casa com meus pais fui ensinado que bastava ser competente que, se ninguém me ofendesse diretamente, eu deveria apenas continuar trabalhando.

Durante muito tempo essa foi minha estratégia.

Hoje entendo que ela era insuficiente.

Porque existe um desgaste silencioso.

Existe um momento em que você deixa de ser apenas um bom profissional e passa a interpretar um personagem para caber em determinados ambientes.

E interpretar esse personagem durante oito, nove ou dez horas por dia cobra um preço muito alto.


Quando trabalhar muito não basta

Houve momentos em que conduzi simultaneamente cerca de 16 projetos.

Entregava resultados.

Assumia responsabilidades.

Resolvia problemas complexos.

Ainda assim, promoções demoravam a acontecer.

Meu salário chegou a ficar abaixo do de profissionais recém-contratados.

Foi quando percebi que continuar esperando reconhecimento talvez fosse a decisão mais confortável — mas não a mais inteligente.

Escolhi provocar a mudança.

Ao longo da carreira precisei recomeçar diversas vezes.

Algumas saídas aconteceram por decisão própria.

Outras não.

Passei por ambientes onde a competição entre profissionais negros era incentivada de forma silenciosa.

Aprendi que nem toda proximidade significa confiança.

Que nem toda amizade dentro da empresa permanece quando interesses entram em jogo.

E, principalmente, aprendi que competência é indispensável, mas não elimina vieses.


Liderar também foi um ato de resistência

A oportunidade de exercer uma liderança estruturada surgiu apenas aos 40 anos.

Demorou muito mais do que eu imaginava. Mas chegou.

Em uma das minhas últimas experiências, tive a oportunidade de liderar diretamente uma equipe formada por Product Managers, UX Designers, Product Marketing e Governança de Produto.

Mais importante do que liderar pessoas foi ajudar a construir uma área de produtos mais madura.

Criamos um Conselho de Produto para aproximar estratégia e negócio.

Estruturamos processos.

Fortalecemos a atuação dos times.

E os resultados apareceram:

Conseguimos aumentar em 37% o engajamento em tratamentos por meio da evolução da jornada do paciente.

Reduzimos o churn em 22% com iniciativas voltadas à padronização da operação.

Também lideramos produtos baseados em Inteligência Artificial que alcançaram aproximadamente R$ 1 milhão em ARR e mais de 85% de adoção entre os clientes elegíveis.

Esses números são importantes.

Mas o que mais me orgulha continua sendo algo muito simples:

Ver pessoas crescendo.

Ver profissionais conquistando espaço.

Ver líderes sendo formados.


A carreira não pode ser maior do que a vida

Existe outra lição que aprendi depois de tantos anos.

O trabalho é importante. Muito importante.

Mas ele precisa servir à nossa vida e não o contrário.

Durante muitos anos trabalhei acreditando que bastava sacrificar mais um pouco. Mais uma noite. Mais um final de semana. Mais algumas horas.

Percebi tarde que alguns momentos não voltam.

Mesmo assim, felizmente, a vida também me presenteou com conquistas que nenhum cargo seria capaz de substituir.

Casei com a Luciana, minha maior parceira nessa caminhada.

Vi nascer o Renato, meu filho, que diariamente me lembra por que vale a pena continuar lutando.

Realizamos o sonho de comprar um imóvel, uma conquista construída com muito esforço, planejamento e renúncias.

E talvez uma das realizações que mais transformaram minha forma de enxergar o mundo tenha sido participar da criação do Pretos em Movimento.

O coletivo nasceu da vontade de fazer aquilo que muitas vezes faltou para nós: criar oportu'nidades.

Hoje ajudamos pessoas a construir conexões, fortalecer negócios, gerar networking, fomentar o empreendedorismo e desenvolver lideranças negras.

Porque ninguém cresce sozinho.


O que eu diria para um jovem profissional negro?

Se pudesse resumir tudo o que aprendi, deixaria alguns conselhos:

Aprenda os códigos do ambiente onde você trabalha.

Antecipe problemas.

Formalize acordos.

Documente decisões.

Construa relacionamentos.

Escolha cuidadosamente em quem confiar.

Não confunda gratidão com submissão.

E nunca faça do trabalho toda a sua identidade.

Seu emprego deve financiar seus sonhos. Sua família. Sua saúde. Sua liberdade. Sua casa. Suas viagens. Seu futuro.

Nunca o contrário.


Ainda estou escrevendo minha história

Hoje continuo acreditando profundamente no poder da tecnologia, da inovação e das pessoas.

Atuo na área de Produtos Digitais, liderando iniciativas de transformação, Inteligência Artificial e desenvolvimento de produtos.

Sou palestrante, empreendedor e diretor do Pretos em Movimento.

Também sigo aberto a novos desafios de liderança, onde eu possa construir produtos relevantes, desenvolver pessoas e gerar impacto para os negócios.

Porque, no fim das contas, minha maior ambição nunca foi apenas ocupar uma cadeira de liderança.

Sempre foi abrir caminho para que outros também possam sentar à mesa.

Agradeço ao AfroConnect pelo convite para refletir sobre esse tema tão importante.

Encerro com um provérbio africano que me acompanha há muitos anos e que resume muito do que acredito:

"Se quiser ir rápido, vá sozinho. Se quiser ir longe, vá acompanhado."

É assim que pretendo continuar escrevendo os próximos capítulos da minha história.


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