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O futuro também é um direito: que país estamos construindo?

Afro Connect
4 de set.
7 min de leitura

por Vinicius Antonio Pedro


ronaldo martins

Existe uma violência que talvez seja menos perceptível do que muitas outras que atravessam a vida da população negra no Brasil: a redução das expectativas em relação ao futuro.

Não se trata apenas de ganhar menos, ter menos acesso à educação ou enfrentar mais obstáculos para ocupar determinados espaços. Há algo que vem antes disso. Trata-se da possibilidade de imaginar a própria vida para além do presente.

Planejar exige alguma confiança no amanhã.

É preciso acreditar que haverá trabalho, renda, segurança e condições mínimas para que as decisões tomadas hoje façam sentido daqui a cinco, dez ou vinte anos. Quando a vida é permanentemente organizada em torno da sobrevivência, pensar no futuro começa a parecer um privilégio.

Por que pensar no amanhã se ele parece ainda mais incerto do que o agora?

Nesse contexto, não se planeja apenas menos a carreira. Planeja-se menos a formação, a renda, a família, a velhice, o patrimônio e, em alguma medida, a própria existência.

O futuro passa a ser dominado pelo acaso.

E talvez uma das consequências mais profundas da desigualdade seja justamente essa: ela não restringe apenas aquilo que alguém possui. Ela também restringe aquilo que alguém consegue imaginar.


Não chegamos até aqui por acaso

Para discutir essa questão, é preciso olhar para a formação do Brasil.

A exploração atravessa a nossa construção social.

Exploramos pessoas, terra, recursos naturais, trabalho e cultura. Ao longo da história, mudaram os instrumentos, as instituições e as justificativas. A lógica da apropriação, no entanto, demonstrou enorme capacidade de adaptação.

Sempre que alguma coisa puder ser transformada em recurso para produzir vantagem, haverá alguém disposto a fazê-lo.

Terra. Gado. Trabalho. Cultura. Conhecimento. Pessoas.

Há algo quase simbólico nisso. Há quem diga que a palavra “brasileiro” nasceu historicamente ligada a uma atividade econômica: o trabalho e o comércio relacionados ao pau-brasil. O termo que depois passou a identificar quem pertence ao país carregava originalmente a marca de uma ocupação.

A provocação talvez seja inevitável: Profissão Brasil.

Não porque todo brasileiro seja individualmente um explorador. Essa seria uma leitura simplista. Mas porque aprendemos a viver em uma sociedade na qual diferentes formas de exploração foram reiteradamente naturalizadas.

E sistemas reproduzem aquilo para o qual foram organizados.

Como aprendem analistas, engenheiros ou gestores, um sistema é um conjunto de elementos que interagem de determinada maneira para produzir resultados.

Quando esses resultados se repetem durante décadas — ou séculos — talvez seja insuficiente tratá-los simplesmente como falhas.

Se afirmamos desejar igualdade, mas continuamos produzindo desigualdade, precisamos fazer uma pergunta desconfortável: para qual resultado nosso sistema está realmente trabalhando?

E há uma pergunta ainda mais incômoda.

Quando determinado resultado se repete ao longo da história e continua produzindo vantagens para alguns grupos, em que momento ele deixa de ser apenas uma falha?

A desigualdade também pode ser funcional.

Ela reduz o poder de negociação de quem precisa sobreviver. Facilita a manutenção de trabalhos precários. Limita o acesso à informação, à formação, ao patrimônio e aos espaços de decisão.

Para quem se beneficia dessas relações, nem sempre existe urgência em transformá-las.


O racismo também organiza expectativas

Dentro dessa construção, o racismo brasileiro possui uma característica especialmente eficiente: ele não precisa se anunciar o tempo inteiro.

Ele aparece nas expectativas.

Antes que uma pessoa negra tenha a oportunidade de demonstrar aquilo que sabe, outras informações já foram processadas por quem está diante dela.

Sua pele fala. Seu endereço fala. Sua roupa fala. Sua escola fala. Sua forma de se expressar fala. Seu sobrenome pode falar.

Antes mesmo da primeira frase, expectativas já começaram a ser construídas.

O problema é que essas expectativas não surgem em um ambiente neutro. Elas são formadas dentro de uma cultura.

Durante muito tempo, difundiu-se no Brasil a ideia de que a principal questão seria econômica: se uma pessoa negra tivesse dinheiro suficiente, poderia frequentar qualquer espaço.

Em alguma medida, pode.

Mas estar presente não significa necessariamente pertencer.

E pertencer não significa necessariamente participar das decisões.

Uma pessoa pode ser aceita em determinados ambientes e, ainda assim, ser observada com maior desconfiança, precisar produzir mais evidências de sua competência ou perceber que existe um limite silencioso para aquilo que esperam que ela ocupe.

É nesse ponto que a desigualdade deixa de atuar apenas sobre a renda e passa a interferir também na imaginação social.

Quem conseguimos imaginar liderando?

Quem imaginamos tomando decisões?

Quem parece pertencer naturalmente a determinados espaços?

E quem ainda provoca surpresa simplesmente por estar ali?

Competência não existe fora das relações humanas Durante muito tempo, ensinamos às pessoas que estudar, trabalhar e desenvolver competência seriam suficientes para construir uma trajetória.

São fundamentais.

Mas não são toda a história.

Organizações, mercados, governos, universidades e comunidades são formados por pessoas. E pessoas são movidas por expectativas, interesses, afetos, medos, alianças, preconceitos, confiança e desconfiança.

No fim, existe sempre uma dimensão política.

Política, aqui, não significa necessariamente partido ou eleição. Significa compreender como as relações funcionam e como as decisões são tomadas.

Quem decide? Quem influencia quem decide? Quem executa? Quem pode discordar? Quem precisa concordar? Quem possui autoridade formal? Quem exerce influência mesmo sem possuir cargo? Quem consegue interromper uma decisão? Quem precisa pedir autorização? O poder não existe apenas no topo de uma grande pirâmide. Ele possui camadas, níveis e aparências.

Uma pessoa exerce o poder que determinada relação lhe permite até encontrar outra camada de poder diante dela. Pode confrontá-la, negociar com ela, acomodar-se, resistir ou reproduzi-la em outra relação.

Isso acontece dentro das grandes corporações, mas também dentro das comunidades mais vulneráveis.

No mesmo quintal de um cortiço, diferentes famílias podem possuir diferentes redes, recursos, prestígio e capacidade de influência.

Uma pessoa pode exercer enorme autoridade dentro de determinado espaço e, algumas horas depois, ocupar uma posição completamente subordinada em outro.

O poder é relacional.

Por isso, reduzir o problema brasileiro à simples substituição de um grupo por outro também seria insuficiente.

A discussão precisa ser maior.

Não basta perguntar quem exercerá o poder.

Precisamos perguntar que relações de poder queremos construir.


Talvez sobreviver não possa continuar sendo nosso único projeto

A população negra brasileira desenvolveu formas extraordinárias de resistência.

Foi necessário.

E continuará sendo necessário em muitos espaços.

Mas existe uma pergunta que talvez precisemos fazer com mais frequência: e se resistir não for suficiente como projeto de futuro?

Resistência pressupõe algo contra o qual precisamos continuar lutando.

Existência é outra coisa.

Existir é conseguir construir uma vida que faça sentido com aquilo que se deseja experimentar.

Não estou falando de um carro do ano para cada brasileiro.

Estou falando de coisas muito menos espetaculares — e talvez justamente por isso muito mais profundas.

Um homem negro de meia-idade conseguir imaginar-se avô.

Uma mulher negra conseguir projetar sua velhice com renda, segurança e dignidade.

Uma família conseguir tomar decisões pensando nos próximos dez anos, e não apenas no próximo boleto.

Uma criança poder imaginar diferentes profissões sem que sua primeira preocupação seja qual delas poderá garantir imediatamente alguma segurança.

Um jovem poder aprender alguma coisa porque aquilo desperta sua curiosidade, e não exclusivamente porque precisa escapar de sua condição atual.

Pessoas poderem olhar para suas escolhas e perguntar: as ações da minha vida estão construindo a vida que eu quero experimentar?

Esse talvez seja um dos significados mais concretos de liberdade.

Poder imaginar-se no futuro.


É preciso voltar a imaginar

Existe uma responsabilidade importante para nós, pessoas negras, nessa construção.

Precisamos conversar mais sobre futuro.

Não apenas sobre os problemas que encontramos, nem somente sobre as estratégias necessárias para sobreviver aos ambientes em que estamos.

Precisamos perguntar uns aos outros: Que outras possibilidades de mundo queremos construir?

Qual é o nosso plano?

Como fazemos para chegar ao outro lado não apenas resistindo, mas existindo?

Isso não significa atribuir às pessoas negras a responsabilidade individual de resolver um problema que é estrutural.

Não existe vácuo de poder.

Onde políticas públicas não chegam, outros atores ocupam espaço.

Onde instituições não protegem, outras relações são construídas.

Onde Estado, empresas ou sociedade deixam lacunas, alguém encontra uma maneira de ocupá-las — para cuidar, controlar, explorar ou lucrar.

Por isso, nenhuma transformação dessa dimensão será responsabilidade de um único ator.

Estado. Escolas. Empresas. Comunidades. Famílias. Universidades. Meios de comunicação. Organizações sociais.

Cada parte desse quebra-cabeça participa da formação da cultura.

Não estamos falando simplesmente de substituir um sistema por outro.

Estamos falando de algo mais lento e profundo: transformar aquilo que aprendemos a considerar normal.


Respeito também é infraestrutura

Talvez seja por aí que precisemos começar.

Pelo respeito.

A palavra pode parecer pequena diante de um problema tão grande.

Mas não é.

Sem respeito, uma parcela da sociedade continuará acreditando ser mais digna, mais preparada, mais legítima ou mais humana do que outra.

E dessa hierarquia imaginada nasce a possibilidade de subjugar.

O outro passa a ser alguém de quem se pode desconfiar antes de conhecer.

Alguém cuja capacidade precisa ser constantemente comprovada.

Alguém cujo trabalho pode valer menos.

Alguém cuja vida pode valer menos.

Quando isso passa a fazer parte da cultura, não basta ensinar individualmente que racismo, misoginia ou homofobia são errados.

As escolas precisam apontar em outra direção.

As políticas públicas precisam apontar em outra direção.

As empresas precisam apontar em outra direção.

A representação e a participação nas decisões precisam apontar em outra direção.

As relações cotidianas precisam apontar em outra direção.

Cultura não se transforma por decreto.

Mas também não se transforma sem intencionalidade.


Afinal, que país queremos?

Talvez essa seja uma das perguntas que precisamos fazer ao Brasil:

Qual é o país que queremos e quais estratégias estamos adotando para chegar lá?

Porque não basta declarar que desejamos igualdade.

Se igualdade é realmente o resultado esperado, precisamos construir sistemas capazes de produzi-la.

E qualquer projeto de país que desperdice sistematicamente o potencial de uma parcela significativa de sua população será, por definição, menor do que poderia ser.

O Brasil só conseguirá fazer jus à sua dimensão quando compreender que seu maior capital não está apenas na extensão de suas terras, nas riquezas naturais ou na capacidade de sua economia.

Está nas pessoas.

Desperdiçar pessoas por causa da cor da pele, gênero, orientação sexual, território ou origem não é apenas uma injustiça contra quem sofre essa violência.

É um projeto de país que escolhe ser menor.

Talvez seja hora de escrever outra página.

E, para isso, nós, pessoas negras, também precisamos recuperar algo que muitas vezes nos foi retirado cedo demais: o direito de imaginar.

Imaginar a velhice. Imaginar nossos filhos. Imaginar nossos netos. Imaginar nossa participação nas decisões. Imaginar segurança. Imaginar cuidado. Imaginar dignidade. Imaginar um país diferente daquele que recebemos.

Não sabemos exatamente como será esse futuro.

Mas nenhum futuro coletivo começa pronto.

Primeiro, alguém precisa ser capaz de imaginá-lo.

Depois, precisamos conversar sobre ele.

E então começar a construir os sistemas capazes de fazê-lo existir.



Vinicius Antonio Pedro

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