Quando a máquina responde antes da pergunta: o que a Inteligência Artificial está fazendo com nosso modo de aprender?
por Marcos Otávio C. dos S. Lima, Mestre em Educação pela PUC-Campinas, licenciado em Letras-Inglês pela UNIMEP, pesquisa a formação de professores, práticas pedagógicas, narrativas de vida e tecnologias digitais na educação básica, com ênfase em Inteligência Artificial na educação.

Estamos vivendo em um cotidiano que se transformou muito abruptamente nas últimas décadas. Antes de tentar resolver um problema, muita gente já abre o ChatGPT. Antes de escrever um texto, pede um rascunho. Antes de pesquisar, pergunta diretamente à inteligência artificial.
Designers por todo o lado. Todos podem gerar uma imagem em instantes sem sequer pensar em composição, forma, estilo, tamanho, disposição, tipografia, paleta de cores e como tudo isso se conversa entre si. Há, portanto, o risco de determinadas etapas do processo artístico serem simplesmente delegadas à ferramenta. O mesmo pode acontecer nas pesquisas. Há estudantes que, antes mesmo de elaborar o próprio problema, recorrem à IA e recebem respostas antes de terem formulado aquilo que realmente querem descobrir. Em outras palavras, o estudante pode interromper o processo de elaboração antes mesmo de formular o que está tentando descobrir.
Poderíamos listar uma série de outras configurações da nossa realidade presente, atravessada por modelos de IA capazes de gerar imagens, textos, sons e outras formas de conteúdo. Eis que surge uma simples, mas complexa pergunta: será que estamos pensando menos? Não gostaria de apresentar respostas simples nem fechadas, mas, caro leitor, convidá-lo a refletir. O que podemos perceber é que o caminho percorrido até o conhecimento tem se reconfigurado.
Antes, partíamos de um problema que gerava uma hipótese, indicava uma pergunta e nos conduzia à pesquisa. Em seguida, buscávamos uma comparação entre nossos pressupostos, chegando a uma síntese e, então, a uma resposta.
Mas o que vemos hoje, muitas vezes, é uma mudança nesse percurso: um problema nos conduz diretamente a um modelo de IA, que nos oferece uma resposta. O que parece evidente, portanto, é que o percurso mudou. E isso nos importa.
Com base na Teoria Histórico-Cultural de Lev Vigotski (THC)*, podemos compreender que a aprendizagem humana não acontece isoladamente dentro de cada indivíduo. Ela é mediada pelas relações sociais, pela linguagem, pela cultura e pelos instrumentos que construímos e utilizamos. Vigotski nos oferece, portanto, uma chave teórica importante para pensar esse fenômeno, ainda que não possa oferecer uma explicação direta sobre a IA contemporânea.
A partir dessa perspectiva, podemos compreender a Inteligência Artificial como uma tecnologia cultural que participa das relações que estabelecemos com o conhecimento. Como instrumento de mediação, ela não é neutra: ao ser incorporada às nossas práticas, modifica as formas pelas quais realizamos determinadas atividades, buscamos informações, produzimos textos, criamos imagens e construímos respostas. E, ao modificar essas práticas, também pode participar da transformação das formas como pensamos e aprendemos.
Isso nos leva a uma questão ainda mais profunda. Talvez não seja mais suficiente perguntar se a IA vai mudar nosso modo de pensar. Ela já participa de práticas que modificam nossa relação com o pensamento. A questão passa a ser: o que estamos conscientemente escolhendo deixar de pensar quando delegamos determinadas operações à máquina?
Pedir à IA que sugira cinco títulos para um texto é diferente de pedir que ela conceba o texto inteiro antes mesmo de sabermos o que queremos dizer. Em uma situação, podemos decidir conscientemente abrir mão de uma tarefa pontual. Na outra, podemos estar delegando à ferramenta uma parte significativa do próprio processo de elaboração. A diferença não está em imaginar que a ferramenta seja neutra, mas em reconhecer que toda forma de mediação produz consequências e, a partir disso, decidir o que queremos preservar como atividade intelectual humana.
Se a máquina passa a realizar determinadas operações que antes fazíamos, precisamos perguntar o que acontece com essas operações em nosso processo de aprendizagem. Se deixamos de formular perguntas, comparar ideias, testar hipóteses, organizar argumentos ou construir uma síntese porque a ferramenta realiza essas tarefas por nós, não estamos apenas utilizando uma tecnologia: estamos modificando o próprio percurso pelo qual construímos conhecimento.
Talvez, então, a pergunta não seja simplesmente se a inteligência artificial tornará as pessoas mais inteligentes ou mais dependentes. Talvez devêssemos perguntar outra coisa: que tipo de pensamento estamos cultivando quando delegamos parte do nosso raciocínio às máquinas?
Essa é uma questão que não diz respeito apenas à tecnologia. Diz respeito ao futuro da aprendizagem, da escola e da própria condição humana.
Para saber mais
VIGOTSKI, L. S. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. São Paulo: Martins Fontes, 1994. LIMA, Marcos Otávio Cassiano dos Santos. Experiências docentes mediadas por Inteligência Artificial: formação de professores e práticas pedagógicas. 2026. 187 f. Dissertação (Mestrado em Educação) - Programa de Pós-Graduação em Educação, Escola de Ciências Humanas, Jurídicas e Sociais, Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Campinas, 2026



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