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O novo topo da carreira não tem cargo — mas será que já chegou pra todo mundo?

  • Afro Connect
  • há 2 minutos
  • 2 min de leitura

por Vando Gonçalves, que traduz complexidade em clareza para times de tecnologia — hoje como Solution Architecture Specialist na e-Core, e construindo, no caminho, sua trajetória rumo a um papel de Field CTO.


ronaldo martins

Tem um conceito circulando entre líderes de produto e growth no Vale do Silício que talvez ainda não tenha chegado até você: Hi-C, sigla para High-impact Individual Contributor — em tradução livre, Colaborador Individual de Alto Impacto. Quem cunhou o termo foi Elena Verna, referência em growth, hoje na Lovable.


A ideia é simples de enunciar e desconfortável de aceitar: durante décadas, o topo da carreira foi virar gestor. Quanto mais gente sob sua liderança, mais "importante" você era — mesmo que seu trabalho real virasse, cada vez mais, só coordenar reuniões e aprovar decisões dos outros. A própria Elena conta que foi desqualificada de uma vaga na Netflix porque só gerenciava 3 pessoas, pra uma vaga que exigia 15. Não importou o que ela entregava. Importou o headcount.


O Hi-C inverte essa lógica. Com IA fazendo o trabalho "de nível médio" — não excelente, mas suficiente — uma única pessoa sênior consegue tocar um projeto do início ao fim sozinha, sem precisar de um time inteiro nem de um cargo de liderança pra justificar seu impacto (e seu salário). O valor volta a ser sobre o que você entrega, não sobre quantas pessoas você comanda.


Até aqui, é uma boa notícia. Mas a própria Elena deixa escapar a parte que decide se isso vira libertação ou só mais uma forma de exclusão disfarçada: esse modelo só funciona se a pessoa tiver acesso real à informação e confiança antecipada de quem decide. Se você só recebe os pedaços que sobram depois que os gestores intermediários filtraram tudo, o Hi-C não existe pra você. Você continua dependente de alguém acima abrir a porta.


E é aqui que a coisa fica pessoal.


Há alguns anos, entrei numa empresa junto com uma leva grande de contratações — entre 15 e 20 pessoas, praticamente ao mesmo tempo. Hoje, olhando pra trás, quase todas elas — as que ainda estão lá e as que já saíram — passaram, em algum momento, por um cargo de liderança. Com exceção de três pessoas. Uma sou eu. Outra é outro profissional negro. A terceira é um colega.


Não estou falando de uma empresa com racismo explícito. É algo mais estrutural: o tipo de confiança antecipada, de "deixa eu te dar esse contexto antes de você provar que merece", que parece se distribuir de um jeito historicamente mais fácil pra uns do que pra outros.


E é exatamente esse o ponto cego do Hi-C. A promessa é linda: você não precisa de cargo pra ter voz, impacto, remuneração. Mas essa promessa só se cumpre se a confiança e o acesso à informação também deixarem de ser privilégio de poucos. Senão, o Hi-C não é uma democratização de carreira — é só uma nova régua, e quem já vinha sendo deixado de fora da régua antiga continua de fora dessa também.


Fica a pergunta pra quem está lendo: quantos de vocês já chegaram a um cargo de liderança? E, de quem chegou, quanto tempo levou — comparado a colegas que você viu passar na sua frente?

Vando Gonçalves

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